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3 de set de 2016

Repensando Romanos 8:28 (um significado diferente do que você foi ensinado)


O texto a  seguir é uma tradução cujo original de Benjamin L. Corey pode ser visto aqui


Tradução de Jon Paredes

Muitos de nós que cresceram no cristianismo, foram ensinados que a vida e a história humana desencadeiam-se de acordo com uma matriz prescrita por Deus.
Cada ação tomada, cada evento é cuidadosamente orquestrado por ele. Alguns desses eventos têm um óbvio propósito cheio de esplendor. Outros são indescritivelmente dolorosos, e ainda assim, acreditamos que eles foram cuidadosamente articulados e controlados por Deus para nos conduzir a um misterioso bem maior.

Para aqueles de nós que cresceram com essa teologia moldada, pode ser difícil desfazer-se dela, entendo bem. Eu já estive nessa mesma posição. Mas ainda bem que transacionei. Reconhecer que Deus não é a fonte de todo o meu sofrimento e dor, mas a pessoa que anseia em vestir a camisa comigo na empreitada de criar algo melhor, é um mais bonito e esperançoso entendimento de Deus. 
Eu não acredito que o fato de eu ter que dizer adeus a três dos meus quatro filhos e nunca ter a chance de vê-los crescer foi um bom e lindo plano que Deus teve. Eu não acredito que foi plano de Deus eu ter que vender suas camas, bicicletas e que, no Natal, eu tenha sido confrontado com o lembrete de que o número de presentes seria menor.
Se esse foi um plano diretor de Deus, foi um plano cruel.
Um dos versículos chave para o qual sempre nos voltamos em se tratando do sofrimento humano, é Romanos 8:28. Esse versículo me foi citado várias e várias vezes, desde o suicídio de um ente querido para à perda de três filhos. O versículo começa assim: 
“Todas as coisas cooperam para o bem...”.
Provavelmente você sabe a qual passagem me refiro.
Encontramos um estranho conforto nessa passagem porque presumimo-la significar que todas as coisas ruins que acontecem em nossas vidas são, na verdade, boas e por um bom propósito. Nesse sentido, ela pode realmente oferecer conforto. Uma das mais profundas e primitivas necessidades humanas é a narrativa. Precisamos de narrativa para nos ajudar a entender e encontrar sentido em nossas histórias. É compreensível que queiramos adotar uma narrativa que diga “tudo na sua vida é para o bem e tudo de ruim que já te aconteceu foi planejado para nosso próprio benefício”. No entanto, não acho que essa seja uma narrativa bíblica.
Essa narrativa desintensifica a realidade do sofrimento, a realidade do pecado, e a realidade do puro mal que nos afeta. Se Deus causa essas coisas por uma razão divina, ficamos um tanto aliviados porque podemos nos recostar e deixar Deus fazer seu trabalho ao invés de assumirmos a complexa tarefa de reconstruir a bonança das cinzas. 
Gosto de como Jessica Kelly lida com essa passagem em seu livro Lord Willing? Wrestling with God’s Role in My Child’s Death (Se Deus Quiser? Digerindo o papel de Deus na morte do meu filho – tradução livre). Ela aponta que nem todas as traduções decifram o grego de forma a dizer que Deus é o agente causador ou designador por trás de cada realidade de sofrimento. Contrário a isso, ela mostra a maneira que traduções como RSV (Revised Standard Version), deixam o leitor com uma noção completamente diferente. A RSV diz:
“In everything God works for good with those who love him, who are called according to his purpose .” (Ênfase de Corey)
“Em tudo Deus trabalha para o bem com aqueles que o amam, que são chamados conforme seu propósito”. (Ênfase do tradutor seguindo Corey)
Consegue ver a enorme diferença? Em uma versão somos levados a crer que todos os eventos trabalham para o bem, enquanto a outra nos lembra de que independente do horror de um evento ocorrido, podemos confiar que Deus ainda está trabalhando para o bem, que ainda anseia por formar uma parceria conosco e trazer algo belo da situação.
Há uma grande diferença entre “todas as coisas cooperando para o bem” e “Deus agindo em todas as coisas para o bem”. Em uma, Deus é o agente causador. Na outra, Deus é inexorável e implacável – ele se trona disposto e capaz de tomar qualquer coisa que lançarmos a ele e ainda encontrar uma maneira de conspirar para o bem.
Kelly escreve:

“De acordo com o Estudioso do Novo Testamento Timothy Gaddert, a confusão se dá acerca do verbo grego para ‘cooperar’. Ele explica que esse verbo não é usado para descrever uma pessoa ‘manipulando certos ingredientes’, mas ‘descreve mais de um agente cooperando em prol de um projeto em comum’. Gaddert conclui que ‘Romanos 8:28 não se refere a Deus modelando eventos para o nosso bem. Refere-se a Deus e aos que amam a Deus trabalhando como parceiros, ‘cooperando’ para fazer surgir o bem em todas as situações.’ A primeira interpretação pode induzir complacência com o mal ou oferecer a equivocada garantia de que todas as coisas ruins estão misteriosamente agindo para nosso bem terreno. Pode até adicionar à crise de uma vítima, uma crise de fé ao passo que ela luta para aceitar que foi seu pai celestial o causador de seu pesadelo. Em contraste, a segunda interpretação de Romanos 8:28 pode ser vista como um desafio para os cristãos. Ela incita o povo de Deus à ação – a encontrar caminhos para aderir às suas boas obras. Quando nos deparamos com pessoas que se sentem alienadas do amor de Deus, temos de nos considerar colaboradores de Deus, enviados para garanti-las, como Geddert sugere, de concretas e tangíveis formas, que Deus ainda as ama.”


Como compreendemos essa passagem e como lidamos com o tema do papel de Deus em nosso sofrimento, têm enormes consequências na vivência cristã. Se Deus causa todo o sofrimento para algum bem maior que não podemos entender, nosso papel se resume em sentar e assistir todos os eventos “predeterminados” se desenrolarem à espera de podermos um dia ter uma vaga noção do que Deus está tentando fazer.
No entanto, quando rejeitamos a ideia de que Deus é o agente causador por trás do nosso acidente de carro, nossas enfermidades, a perda de nossos filhos, e o aceitamos como um Deus que é especialista em tomar acontecimentos horríveis e, a partir deles, criar bonança e esplendor (quando decidimos nos unir em parceria com ele), nossa experiência deixa de ser um chamado ao medo e à complacência, para se tronar uma experiência de parceria e esperança. 
Qual visão traz mais conforto? Qual delas parece mais consistente com a revelação de Deus que vemos em Jesus? É a que diz que Deus cria todo o sofrimento por alguma razão misteriosa, ou aquela em que ele trabalha constantemente com quaisquer variáveis sombrias que possamos enfrentar para de alguma forma trazer coisas boas para nós?
Eu sei qual delas faz mais sentido para mim.
Seja qual for o sofrimento que você já passou na vida, seja qual for a perda ou dor que você esteja passando agora, você pode ter certeza de que um Deus de amor não fez isso com você – isso não foi uma obra da mão de Deus. Ao contrário disso, nossa esperança é em um Deus que anseia em se unir em parceria conosco, em tomar nossas mazelas, feridas e lamentos para, juntos, encontrarmos um jeito de criar beleza em meio à destruição. 
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Benjamin L. Corey é um estudioso nas áreas de teologia e missiologia. Também é o autor do livro Undiluted: Rediscovering The Radical Message of Jesus.

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