Translate into...

17 de jun de 2016

Armagedom – a quem interessa?




O texto a  seguir é uma tradução cujo original de Brian Zahnd pode ser visto aqui.

Tradução de Jon Paredes

No segundo domingo depois dos ataques terroristas de 11 de setembro em 2001, eu ministrei um culto entitulado "A Estrada para o Armagedom". Durante aqueles dias de dor e ira, ao invés de pregar o evangelho da paz e do perdão, eu recorri ao clichê tropo dispensacionalista que afirma que uma grande guerra no Oriente Médio tem que acontecer antes que Jesus possa voltar.
Depois eu me arrependi e compensei o erro pastoral, mas permanece o fato de que meu erro foi causado pela péssima noção escatológica que eu herdei. The Late Great Planet Earth e a série Deixados para Trás são apenas os mais conhecidos de incontáveis livros que popularizaram a pior leitura possível de Apocalipse. 

O fenômeno do dispensacionalismo moderno juntamente com seu endosso de uma suposta divina e inevitável tribulação, é uma escatologia tão disforme e perversa que não cabe ser chamada de cristã.  Uma escatologia cristã de paz e esperança vem sendo suplantada por  uma medonha escatologia de violência e condenação.  Uma escatologia que insiste que tem de haver mais guerras, mais fome, mais terremotos e mais epidemias antes que Jesus possa voltar, não é uma escatologia cristã.  O apóstolo Paulo se refere à gloriosa vinda de Cristo como "a bem-aventurada esperança", mas não há nada de bem-aventurado na guerra ou na catástrofe global. 


Ainda assim, os partidários da escatologia dispensacionalista se encontram à espera de "guerras e rumores de guerras". De acordo com a visão deles (baseada em uma leitura absolutamente errônea do Sermão do Monte das Oliveiras e do livro de Apocalipse), Jesus não pode voltar até que uma série de catástrofes globais, culminando na Terceira Guerra mundial, ocorra antes.  Isso resulta no deplorável fenômeno de cristãos  esperando veladamente (ou nem tão veladamente assim) por mais uma guerra  e encontrando um razão para celebrar as últimas tragédias. Um terremoto mata 100.000 pessoas na China e em algum lugar da América um cristão sorri e diz "Glória à Deus! É um sinal do fim dos tempos. Jesus está voltando!" Uma escatologia que se alegra com terremotos e faz com que pessoas desejem mais uma guerra no Oriente Médio, não é uma escatologia cristã! A esperança cristã é pela paz da Nova Jerusalém, não pelos horrores do Armagedom.

Ao contrário da ficção de The Late Great Planet Earth, Deixados Para Trás, Four Blood Moons e seus semelhantes menos famosos, a estrada para o Armagedom não leva à Nova Jerusalém.    Quando se informa a direção para Nova Jerusalém, não se diz "Segue a estrada para o Armagedom onde 200 milhões de pessoas serão mortas em uma grande guerra no Oriente Médio. Daí, segue reto até chegar em Nova Jerusalém." Não! Não é caminhando para o Armagedom antes, que chegamos à paz de Nova Jerusalém; encontramos Nova Jerusalém seguindo o Cordeiro.

Armagedom é a antítese de Nova Jerusalém. Os dois são sempre distintas possibilidades, mas destinos divergentes. Nova Jerusalém é a esperança sempre presente e a possibilidade das noções poderem abdicar da Besta e seu interminável Armagedom, e seguirem o Cordeiro à cidade celestial cujos portões nunca se fecham. Armagedom e o lago de fogo são simbologias que João de Patmos emprega para nos alertar a não seguirmos a Besta do império. Então, analisemos Armagedom mais precisamente:

“E os espíritos demoníacos reuniram todos os líderes e suas tropas em um lugar chamado Armagedom.” — Apocalipse 16:16

Foram poucas as palavras que cativaram nosso imaginário religioso mais do que Armagedom.  Pelo volume de trafego que esta palavra tem, você pode pensar que ela aparece com frequência nas escrituras, mas na verdade, ela só aparece uma vez. Em Apocalipse 16:16, João vê espíritos demoníacos juntando os exércitos do mundo em um lugar chamado Armagedom — palavra hebraica para “Vale de Megido”.

Hoje, Megido, patrimônio da humanidade, é um dos mais visitados sítios arqueológicos em Israel. A aproximadamente 70 metros acima do Vale de Jezrael, essa colina é o resultado das 26 vezes que a cidade foi destruída e reconstruída. O fértil Vale de Jezrael fez de Megido um quisto local para uma antiga cidade, mas, infelizmente, o Vale de Jezrael estava localizado em uma geografia de guerra. Situado entre os grandes impérios assírio e babilônico ao norte e o grande império egípcio ao sul, Megido frequentemente se via ao centro de um colérico campo de batalha. Seu lamentável histórico de 26 destruições faz dele um apto símbolo de guerra sem fim.  

Para os leitores primários de João, uma referência a Armagedom evocaria a imagem de um campo de batalha. Se eu fizer uma referência à Praia de Omaha, provavelmente você não imagina um piquenique à beira mar, mas um sangrento campo de batalha.  Isso é o equivalente a Armagedom — um ícone de guerra. 


Antes de evocar Armagedom, João o Revelador descreve uma imagem de três espíritos em forma de sapos saindo da boca do dragão, da besta e do falso profeta.  Em Apocalipse, o dragão, a besta e o falso profeta são uma espécie de Profana Trindade  que simboliza Satanás, Roma e a propaganda imperial. O sapos que saem da boca da Profana Trindade são demônios de acusação, império e propaganda. Esses sapos-demônios exercem poderosa influência sobre líderes políticos. Sob o encanto do coaxar dos sapos de acusação, império e propaganda, políticos são seduzidos a guiar o mundo para o Armagedom... ou para Waterloo, ou para Batalha de Gettysburg, ou para os campos de Flanders, ou para Pearl Harbor, Hiroshima... a lista é longa.

À medida que praticamos acusação, imperialismo e propaganda, o Armagedom se aproxima. Nosso Armagedom é um futuro possível, mas não inevitável.  A sedução demoníaca da acusação, do imperialismo e da propaganda, está sempre levando a humanidade a mais combates sangrentos.

O Armagedom não é o fim da guerra, mas a guerra sem fim. Não há como seguir guerreando para se obter paz. Não há caminho para a paz; a paz é o caminho... e Jesus é o Príncipe da Paz. Se tentarmos cessar a guerra com guerra, sempre teremos mais guerra. A Primeira Guerra Mundial foi proclamada como "a guerra para acabar com todas a guerras". Então, 17 milhões de pessoas foram sacrificadas no altar da guerra para acabar com a guerra. E o que conseguimos? 60 milhões de pessoas mortas na Segunda Guerra Mundial! O que causou a Segunda Guerra Mundial? A Primeira Guerra Mundial. E o que causou a A Primeira Guerra Mundial? Líderes mundiais seduzidos por acusação, imperialismo e propaganda.

Esta é a relevância do livro de Apocalipse. A visão apocalíptica de João não prevê uma guerra inevitável onde 200 milhões de pessoas serão mortas no Oriente Médio. Antes, João nos entrega nossas opções de escolha. Seguimos o Cordeiro para a Shalom de Nova Jerusalém ou seguimos a Besta para os horrores do Armagedom. Ouvimos o Cordeiro ou ouvimos os sapos. Os sapos sabem o caminho para mais um Armagedom. O Cordeiro lidera o caminho para a cidade celestial da paz.

É assim que entendemos a ira e a vontade de Deus no livro de Apocalipse. Se seguirmos a Besta, acabaremos em Armagedom  — essa é a ira divina, ou como é chamada em Apocalipse 6:16, "a ira do Cordeiro”. É a ira de Deus como divino consentimento com a nossa própria trajetória de morte. Mas se seguirmos o Cordeiro, chegaremos à Nova Jerusalém (esta é a vontade de Deus). A vontade de Deus nunca é o Armagedom; A vontade de Deus é sempre Nova Jerusalém. 

Mas de acordo com as tolices de Deixados para Trás e seu saliente exemplo de má interpretação, o Armagedom é uma guerra final e inevitável no Oriente Médio que precisa ocorrer antes que Jesus retorne. Esse tipo imprudente de escatologia força seus partidários a serem instigadores de guerra, não promotores da paz.  Se você acreditar que tem que haver uma grande guerra no Oriente Médio antes que Jesus possa voltar, você será um péssimo pacificador. Uma escatologia fatalista que requer uma tribulação de fim dos tempos que massacra centenas de milhões de pessoas, é mais interessante para o ISIS do que para os seguidores do Príncipe da Paz.

Então permita-me dizer da maneira mais enfática que posso: Não precisa haver outra guerra para que Jesus retorne! Deus não escreveu um roteiro inalterável que requer guerra. Se recusarmos o caminho do Cordeiro, teremos Armagedom. Essa é a ira de Deus; Ira como consequência, não como retribuição. Se aceitarmos o caminho do Cordeiro, teremos Nova Jerusalém. Essa sempre é a vontade de Deus. Não existe um determinismo divino que requer mais um Armagedom.

Se você acha que a bem-aventurada esperança não pode ser realizada sem que a mais sangrenta guerra da história o corra, agora você pode jogar fora essa medonha distorção do evangelho. 

Faça isso.
————————————————————————————————————————-----------------
Brian Zahnd é fundador e Pastor líder da Word of Life Church, uma congregação cristã não confessional em Saint Joseph, Missouri. Brian e sua esposa Peri fundaram a igreja em 1981. Brian também é autor de vários livros, incluindo Water to Wine, A Farewell To Mars, Beauty Will Save the World e Unconditional?: The Call of Jesus to Radical Forgiveness.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Use de boa consciência nos comentário. Sem ofensas, palavrão, racismo, homofobia, discurso machista ou anti-gay. Não diga o que não gostaria que dissessem a você.

Leia também

Leia também