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30 de jan de 2016

Gay da Paz é Ativista?

  

“Não apoio estes movimentos porque, antes, era a igreja católica junto ao estado, que oprimia o povo. O protestantismo que lutou contra a opressão religiosa, agora quer oprimir impondo suas condutas religiosas sobre o nosso país. Quem garante que o movimento LGBT não vai fazer a mesma coisa?” 

  Uau! Eu ficava cada vez mais chocado.


   Recentemente, encontrei um conhecido no ponto de ônibus. Esperávamos a condução após um longo dia de trabalho e conversávamos sobre assuntos diversos. No meio da conversa me lembrei do seu namorado e perguntei se tinham interesse em casar. A pergunta foi meio séria e meio brincadeira. Eu sabia que eles estavam juntos há pouco tempo, mas queria saber o que Guto (aqui nome fictício) se sentia em relação a esse direito recentemente conquistado com grande ajuda da militância LGBT. Infelizmente, uma conversa muito triste se desenrolou a partir de então. Por mais que ele jurasse que sim, Guto demonstrou não ser favorável ou sequer se importar com a luta pela igualdade social à sua comunidade. Ele equiparava ativismo por direitos, a “exageros”, atribuindo militância a pessoas sem senso de respeito. Estarrecido, eu o ouvi dizer que “hoje em dia nem os héteros querem mais casar”. Tive que elaborar bastante para trazê-lo de volta à realidade: diferentes de gays, héteros já podiam se casar quando decidissem. Mas meus esforços pareciam inúteis. Ele ainda deu a entender que não é a favor da tipificação do crime de homofobia porque, segundo ele, temos que procurar nossos direitos como seres humanos e não como gays. Eu o lembrei de que quando a lâmpada fluorescente estoura na nossa testa, não é só porque somos humanos. Afinal, a antropofobia ainda não nos oprime. 

  Depois de um tempo tentando entender o porquê de Guto tratar a peleja por direitos iguais de forma tão indigna e desconsiderada, descobri que seu motivo era a paz. Sim, aquela falsa paz que segue admitindo. É mais fácil estar em sonoridade com a maioria, existe empoderamento em estar na maior torcida, lutar com quem é forte, chutar cavalo morto. Para fugirmos da realidade, dizemos que nossos parentes, amigos e vizinhos nos aceitam muito bem, quando, na verdade, precisamos não ser tão salientes para não provocá-los. Sentimo-nos menos humilhados quando inventamos outros motivos para a camuflagem. Dizemos que não há necessidade de segurar a mão do nosso companheiro(a) em público e que entre quatro paredes podemos fazer muito mais do que só isto, quando, na verdade, hesitamos em agir conforme quem somos por medo de represálias. 

  Guto é um homem gay que jura não estar no armário, mas faz todo o esforço para manter sua orientação sexual em absoluto sigilo (claro que isso é um direito dele, entendo bem). Isso com a justificativa de que sua vida pessoal não precisa ser exposta aos outros (como se héteros, então, não expusessem suas vidas pessoais a todo tempo). Este é o conveniente armário de porta entreaberta que te remove o indigno peso de ser “enrustido” e, de quebra, te isenta dos efeitos colaterais de ser um gay assumido. Para Guto, eu devo ser um chato engajadinho gritando bichas unidas jamais serão vencidas. Se for este seu pensamento, ele não está errado. Sei que não sou nenhum Jean Willys ou um Harvey Milk, mas não ser ativista não é mais uma comodidade para mim. No caso de nós LGBTs, quando vivemos abertamente quem somos, quando tomamos partido da nossa existência sendo cientes dos nossos direitos e responsabilidades, fica difícil não ser militante em algum grau. 

  Exceto por fazer parte de uma comunidade que é homoafetiva/sexual, sou um homem como todos os outros. Também tenho expectativas sobre meu hoje, meu amanhã, o amanhã da minha família, dos meus filhos, também tenho planos pela frente. E como meu visual do futuro não envolve esconderijos, preciso ser engajadinho hoje. Tim Cook é um ótimo exemplo de alguém que não se considera um militante, mas reconhece a importância do ativismo: “Eu não me considero um ativista, mas percebo o quanto tenho me beneficiado com o sacrifício dos outros.” Ele disse. “Então se o fato de saber que o CEO da Apple é gay puder ajudar alguém que luta para se conformar com quem é, ou trazer conforto para alguém que se sente sozinho, ou inspirar pessoas a persistir pela igualdade, então vale a pena abrir mão da minha própria privacidade."  

  Reconheço que é cansativo falar na voz da minoria, que é desanimador pedalar contra o vento, mas reproduzir o discurso do opressor para se abrigar em seu apoio é um comodismo vergonhoso e covarde. Esse cruzar de braços frente a opressão da sua própria comunidade é um assento estofado dentro de um tanque de guerra que te mantém seguro enquanto soldados pelejam pela terra que você vai habitar depois do conflito.

2 comentários:

  1. "Tim Cook é um ótimo exemplo de alguém que não se considera um militante, mas reconhece a importância do ativismo: “Eu não me considero um ativista, mas percebo o quanto tenho me beneficiado com o sacrifício dos outros.” Ele disse. “Então se o fato de saber que o CEO da Apple é gay puder ajudar alguém que luta para se conformar com quem é, ou trazer conforto para alguém que se sente sozinho, ou inspirar pessoas a persistir pela igualdade, então vale a pena abrir mão da minha própria privacidade." Reconheço que é cansativo falar na voz da minoria, que é desanimador pedalar contra o vento, mas reproduzir o discurso do opressor para se abrigar em seu apoio é um comodismo vergonhoso e covarde."

    Sim, muito sim!
    Obrigado por esse texto, Jon :)

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  2. Eu que te agradeço pelo comentário no meu texto, por prestigiar minha página, Tales. Volte sempre aqui. Abraços!

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