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4 de jul de 2015

Confrontando Discurso Homofóbico



Não sou de tipo que gosta de comprar briga. Não costumo confrontar opiniões a não ser em conversas super tranquilas com pessoas idôneas e civilizadas. Sou um daqueles curiosos do programa Vai Fazer o Quê? do Fantástico, que, embora indignados frente à injustiça das situações simuladas, não têm coragem ou fibra emocional para intervir. Por inúmeras vezes fui esse espectador covardão diante de comentários homofóbicos no trabalho, na escola, em cursos, na rua, na fila do banco. Tive, e tenho, receio de confronto em lugar público, por medo de fazer cena, de gerar uma briga, de me alterar, de parecer patético na frente dos outros, de me encontrar no meio de uma discussão em que todos se oponham a mim, medo de ficar tão nervoso que não consiga lançar bons argumentos, medo de ficar remoendo por dias uma situação desagradável, e muitos outros medos. Mas meu primeiro posicionamento firme contra um comentário homofóbico me ensinou algumas coisas.


O Confronto

Há uma semana atrás, saindo do trabalho, peguei carona no carro de um conhecido. Já havia pegado carona com ele algumas vezes, mas desta vez não consegui o assento da frente. Já estava ocupado com um cara sisudo e calado. O percurso que fazíamos era de Búzios a Cabo Frio. No trajeto, ainda em Búzios, passamos por um festão em um campo de futebol na beira estrada. Esta festa fez o nosso homofóbico lembrar de um outro evento que ocorrera em Cabo Frio no dia anterior: A Marcha da Família (sob um olhar franco, uma festa evangélica com direito a show ao vivo, feita para aliciar pessoas a ojerizar famílias e indivíduos LGBT). A partir daí, seguiu-se o diálogo/monólogo entre ele e o motorista. Mais ou menos assim:

– Tu foi no show em Cabo Frio ontem, Assis?
– Nem fui, cara. Tava “morto”. Só fui no mercadão mesmo e depois fui para casa descansar. 
– É, cara… Tá ficando brabo. Esse mundo está cada vez pior. Tá tendo muita intolerância…

Intolerância?! Me alarmei em pensamento. Será que vou ver, em primeira mão, alguém se posicionar tão espontaneamente contra a discriminação? Tinha esperança que sim, mas algo já não cheirava bem. 

– Ultimamente tem muita palhaçada acontecendo. Agora tem essa paradinha do arco-íris, tá ligado? Agora todo mundo tá botando foto coloridinha sem nem saber o que significa. Bando de palhaço. Isso é uma palhaçada! As famílias estão se destruindo. Nos Estados Unidos agora, todo o país aceitou o casamento gay e dizem que o próximo passo é o Brasil. Até o Mac, cara! Até o Mac colocou a maçã coloridinha. Puta que merda!

O desdenhoso tom de nojo e aversão com que ele falava, fazia meu peito gelar. Minha garganta apertava e os meu ombros petrificavam. Toda aquela tensão era o medo da minha inércia. Me sentia sendo provocado, escarnecido, desafiado. Vai fazer o quê? Eu me perguntava. Essas coisas sempre pegam a gente de surpresa. Não sabemos como responder, surgem os medos. Mas eu já tinha presenciado muitas situações como aquela, não podia dizer que estava surpreso. Senhor Jesus, me dê paz nesse momento, porque se eu falar alguma coisa, preciso estar calmo. Pedi ao Deus dos oprimidos. Não me recordo bem a ordem das falas entre eu e o homofóbico. E minhas respostas a ele não foram das mais afiadas ou elaboradas. Foram desabafos espontâneos do coração. Mais ou menos assim:
– Sim, porque já estava na hora, né, cara! – Eu disse de maneira súbita, em volume alto e tom grave.
– Na hora de quê? – ele devolveu austero.
– Na hora de darem um fim nessa hipocrisia.
– Hipocrisia?
– Por que uma parcela da população pode ter seus direitos garantidos e a outra não? Isso sim é que é palhaçada. Todos têm direito ao casamento civil – eu falava com tanta propriedade que nem me reconhecia.
– Eu não concordo com isso. Vejo as famílias por aí se desintegrando, os pais não dão educação, não instruem…
– Casamento igualitário não tem nada haver com destruição de família. Você está muito mal desinformado – às vezes, no calor da coisa, a língua portuguesa vai para o espaço – Educação ou falta de educação é um problema de cada um. Isso não tem absolutamente nada a ver com os gays.
Se eu pudesse voltar atrás, não o teria interrompido tanto. Eu falava compulsivamente. Ele erguia seu tom de voz e eu o meu, mas não soltei nenhum palavrão eu termo pejorativo.
– Minha sobrinha mesmo me contou que na escola dela – ele segui – uma menina de 14 anos já namora outra menina da mesma idade. Você acha isso certo? 
– É porque isso é algo novo para as pessoas. Felizmente, com a questão racial, nós já aprendemos a respeitar as diferenças (não totalmente mas significativamente), mas com sexualidade e identidade de gênero ainda não – juro que falei bonitinho assim. 
Nesse  momento, o motorista fez sua breve participação:

– É igual a cigarro. Quando surgiu era um escândalo, agora é comum – disse Assis.
– Eu acho que cada um tem sua opinião. Não é nem preconceito…
– É preconceito sim, senhor – interrompi o homofóbico mais um vez – É discriminação sim, porque seu eu dissesse que não queria minha filha branca se casando com um cara negro, eu teria sérios problemas, especialmente se alguém me gravasse dando um discurso destes. Ninguém hoje em dia defende esse tipo de opinião. Pense, há 60 anos atrás, o que passava um casal interracial. Esse pavor que vocês sentem em relação aos gays é medo que os pastores de televisão colocam na cabeça de você, para manipular vocês.

O papo já tinha ficado chato (para eles). O clima indicava que a conversa já tinha acabado mas eu continuei papagaiando sozinho:

– Quer proteger a família? Faz uma lei proibindo o divórcio, pronto. Ninguém mais separa, nenhuma família se desfaz. Cadê os militantes anti-divórcio? Cadê a marcha evangélica contra o divórcio? Não tem!

– Lembra daquela menina que apedrejaram, a do candomblé? O que é isso? Preconceito! –Disse o homofóbico em um tom sereno. Não sei ao certo o que ele vinha comunicar com aquilo, mas creio que ele quis dizer que tal agressão cruel caracteriza preconceito e as opiniões dele não. Hum! Bonitinho ele, não? 
Percebi durante a discussão que ele se arrependera de ter iniciado o papo. 
A conversa acabou ali. Descemos no mesmo ponto e ele fez questão de me dar boa noite ao ir embora. Mudei a opinião do cara? Provavelmente não. Calei a boca do cara? Não, mas impus respeito e disse o que ele precisava ouvir. Hoje ele sabe que gay não é filho (tão) órfão.

E o Direito de Opinião?

Sim, todos têm direito de ter sua opinião, claro! O pensamento é como uma propriedade particular e o discurso, uma via pública: o que penso é coisa minha, mas minhas opiniões faladas têm consequências e dispõem-se para serem contestadas. Se tenho audácia para falar, tenho que ter fibra para ouvir. Quantos negros (ou qualquer outra etnia) ficariam calados diante de “expressões de opinião” racistas? Quantas mulheres, caladas, respeitariam um discurso misógino? Opiniões são bem vindas quando pedidas.


O Que Aprendi

Os homofóbicos/anti-gays sentem-se livres para discursar o preconceito porque não esperam que alguém vá se posicionar em defesa. Suas expectativas têm fundamento, porque é raro alguém sair em defesa dos LGBTs. Mas quando alguém quebra essa regra, de maneira firme, os “defensores dos bons costumes” são pegos de surpresa.

Nem sempre é possível confrontar. Algumas situações podem ser super desfavoráveis ou arriscadas. Mas sempre que possível, precisamos mostrar para as pessoas que não somos filhos de chocadeira, que temos uma identidade, sentimentos, opinião, família. Sim, também formamos famílias, não as destruímos.

Depois da primeira vez que contestamos discursos homofóbicos, nos sentimos mais confiantes e audaciosos para a próxima vez que for necessário. Alguns medos se quebram e vão dando espaço à dignidade.

Quando discursos homofóbicos/anti-gay não incomodam a mim que sou gay, será que saí totalmente do meu armário? 
Pergunto isso porque alguns conhecidos gays me dizem que eu “não deveria bater boca atoa”. Atoa? Me posicionar em prol da dignidade LGBT, de fato, não é algo tão fácil ou confortável. É admitir que estou à mercê da piedade do resto da sociedade, que meus direitos são usados como moeda de troca no congresso nacional, que preciso ser o bobo da corte, o núcleo cômico da novela para receber alguma simpatia. O tapinha nas costas que a sociedade heteronormatiava nos dá quando dizemos coisas do tipo “acho que os gays estão exagerando nas exigências” ou quando fazemos piada de nós mesmos, representa uma aprovação que usufruímos quando escondidos no armário. Quando percebo que não quero mais ser cidadão de segunda classe e decido deixar o armário por completo, não há mais espaço para tolerar discursos homofóbicos. Eles incomodam sim – não a essência do discurso, mas a liberdade e a impunidade que seus oradores gozam.


Pensando em família, desejo que os filhos de casais do mesmo sexo não tenham a impressão de estarem sendo criados por um casal de Genis de Chico Buarque. Que não sejam obrigados a ouvir coisas abomináveis sobre seus pais sem que nada possa ser feito. Quero que sintam-se seguros e protegidos na família que estão. Quero o mesmo que todos. Nada a mais do que ninguém.

2 comentários:

  1. Nunca sei qual é a melhor ação frente à intolerância, ainda mais porque a intolerância pode nos ferir. Contudo, tenho pensado cada vez mais que o silêncio não é um caminho aceitável porque invisibiliza, faz parecer que tudo o que é dito e feito não encontrará resistência. A intolerância passa por desumanizar os outros – necessariamente *outros*, diferentes do *eu*. O desafio, me parece, é mostrar que o ódio está dirigido a seres humanos reais.

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  2. "O desafio, me parece, é mostrar que o ódio está dirigido a seres humanos reais."
    Exatamente. Por isso digo que sempre que for possível (e seguro), devemos mostrar que existimos e estamos alí.
    Obrigado pela leitura e pelo comentário, Tales!

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