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16 de dez de 2014

Sem Orgulho de Ser Homem



  “Este meu rosto vermelho e molhado é só dos olhos para fora. Todo mundo sabe que homem não chora.”
Embora o choro masculino já não seja lá tão mal visto no mundo de hoje, o verso da canção interpretada por Frejat traz à imaginação a figura patética de um homem fragilizado, vulnerável. Mas o que torna esta figura uma visão patética? Seria a vulnerabilidade, a aparência de fraqueza? 
   Os termos “palavra de homem” ou “atitude de homem” são frequentemente atribuídos a uma personalidade decisiva, honrosa, corajosa e verdadeira. Sendo assim, o que se atribui à mulher que mostra esta postura? Talvez: “honesta”, “verdadeira”, “madura”. A palavra “mulher” não carrega atribuições de honra.
   Quanto ao “ser homem é ser viril”, é gozado como entendemos o conceito força. Recentemente em um curso de combate a incêndio, o instrutor explicava sobre a prioridade de salvamento para diferentes tipos de vítima no cenário perigoso de um acidente aeronáutico. Daí, um aluno soltou a piadinha: “salvamos primeiro as mulheres”, o que moveu outro a completar: “Primeiro as mulheres, segundo os efeminados, terceiro as mulheres, depois os efeminados… Lá só tem isso.” Não entendi de imediato o que ele quis dizer até que, logo em seguida, um terceiro explicou: “É… porque num acidente desses, o cara vira homossexual na hora!”. Ser homossexual, para o tal aluno (e para bilhões de pessoas) é assumir o “desonroso” papel da mulher que, na cabeça deles, é naturalmente fraca e não hesita em demonstrar desespero.  
   Em nossa configuração social patriarcal, para ser um homem é necessário ser imune de qualquer vulnerabilidade. O antigo “rosa é de menina e azul é de menino”, me faz questionar quem criou essa regra que, até certo tempo atrás, era impassível de burla (exceto para as meninas). O rosa é atribuído à meiguice, à delicadeza, à fragilidade, à graciosidade etc. Qualidades que, por causa do machismo, não são bem aceitas em um homem. Qualquer coisa que torne um homem vulnerável, arranca-lhe esse título de honra. Isso mostra que o machismo pesa sobre os homens, impondo aos mesmos a responsabilidade de serem rígidos, másculos, imbatíveis, irredutíveis, livres de medo e heterossexuais. 


   Ambos os sexos são fortes e vulneráveis ao seu próprio modo. Mas o homem afetado pelo machismo não tem coragem nem liberdade de assumir sua natureza. Já a mulher tem coragem (e a liberdade) de assumir suas fraquezas e vulnerabilidades quando as percebe. Isso faz da mulher um ser forte que se permite à reflexão e ao autoconhecimento – algo bonito de se ver. O papel social chamado “homem” é algo fantasioso, irreal,  que se torna um fardo pesado nas costas de homens e mulheres.
   Quanto ao homem chorão da música de Frejat, o que torna-o uma figura patética? Seria a vulnerabilidade, a aparência de fraqueza? Eu diria que sua falta de coragem, capacidade e liberdade de admitir sua fragilidade torna-o homem. Uma título que eu, particularmente, não tenho orgulho de ostentar.

2 comentários:

  1. Nossos comportamentos são moldados pela maneira como somos criados, pela cultura na qual estamos inseridos. Fiquei pensando nesse tirinha que tu trouxe como ilustração: eu achei que, no final, o homem bateria na mulher, porque ser forte é o que significa ser homem. Ser diferente da mulher. Ser superior. O que é triste, na real.

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    1. É verdade. Nessa tirinha, a reação do rapaz é um reação idealizada, um desfecho que queremos, um passo evolutivo dado pelo personagem masculino. Mas a realidade é que os afetados pelo machismo, muitas das vezes, estão incapacitados de dar esse passo pelos motivos que a tirinha já ilustrou.

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