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13 de jul de 2014

O Beijo Gay e a Incoerência Evangélica


“Desliguem a TV nesta segunda-feira e vamos derrubar a audiência da Globo até parar com essa afronta aos princípios de Deus”

Isso aí! Desligue a TV… E não ligue nunca mais para que não se veja os ‘princípios divinos’ serem afrontados todos os dias e horários em basicamente todas os emissoras de canal aberto.

Esteve rolando um, assim dito, protesto evangélico nas redes sociais contra o beijo das personagens Clara e Marina da novela de Manuel Carlos, Em Família. O “protesto evangélico" propõe um boicote ao episódio em que as amantes se beijam, pedindo que os telespectadores “desliguem a TV” para derrubar a audiência da Globo. Mais ou memos a mesma coisa aconteceu com o beijo entre Felix e Nico, personagens da novela Amor à Vida, de Walcyr Carrasco. Me entenda bem: minha intenção com este texto não é implicar com os evangélicos (até por que conheço evangélicos sérios que estão comprometidos com o social e com o amor ao próximo) mas sim propor o pensamento:

Que evangélico sério se envolveria em uma campanha como essa?


Dentro da doutrina evangélica, alguns dentre muitos pecados são: adultério, fornicação, poligamia, prostituição, homossexualidade, masturbação, sexo antes do casamento, bebedeira, fumo, fofoca, violência, roubo e muitos outros. Em 2012 Alexandre Borges interpretou Cadinho na novela Avenida Brasil, onde fazia cenas quentíssimas com cada uma de suas três esposas. Opa! Poligamia na novela. Será que desligaram a TV? Cadê a campanha de boicote? Em muitas novelas e seriados, e vários canais, casais de namorados transam antes de se casarem na trama. Olha aí! Fornicação (de acordo com eles) na novela. Cadê o controle?


INCONSISTÊNCIA 

A TV mostra soco na cara, roubo, reforça modelos artificias de beleza que fazem muitos adolescentes (e também adultos) odiarem a sua própria aparência… Em fim, a TV mostra muitas coisas ruins. Dentre estas coisas estão aquelas consideradas pecado pelos religiosos, que têm todo o direito de pensar o que quiserem, mas por que o beijo gay ganha uma campanha de boicote só para ele? O que isso tem de tão especial que todos as outras “afrontas a Deus” passam batidas enquanto a “afronta do beijo gay” é tão fortemente criticada? 

Se refletirmos com atenção, concluiremos o óbvio: que a maioria (evangélicos incluídos) não condena com tanta veemência a lascívia, as cenas de sexo, o adultério ou a violência exibidos nos filmes e telenovelas e entendem que tudo isso não passa de ficção. Mas os relacionamentos homossexuais ainda são muito mistificados e categoricamente condenados pela maioria das mentes humanas. Muitos ainda acham – ou preferem achar – que as pessoas se tornam gays em um determinado tempo da vida. Muitos acham que ser gay é um comportamento que pode ser iniciado ou abandonado, que uma sexualidade pode ser (facilmente) deixada ou aderida. Daí fica bem fácil para um grupo de preconceituosos abitolados se manifestar contra algo que poucos irão defender. Por que os grupos religiosos não se mobilizam fazendo companhas contra os vários manjares visuais da TV que servem de deleite aos olhos e sentidos do povo brasileiro (cenas de sexo, exaltação a padrões surreais de beleza, soco na cara, tiro no peito, sensualidade (hétero), traição, fofoca, soberba de ricos…)? Porque se o fizerem, serão ridicularizados e taxados de chatos de galocha. Mais do que já são. Cadinho, o homem das três mulheres, foi um herói masculino, que recebeu admiração velada e risos de simpatia dos telespectadores.

O certo então seria que os tais “evangélicos” do Facebook saíssem toda a semana com uma campanha puritana pautada em sua extensa lista de ‘afrontas aos princípios divinos’ e nunca mais ligassem a televisão. E, cá pra nós, se você ler os comentários desses caras nos sites de notícias e nas redes sociais em relação aos gays, parece que eles têm de tudo no coração… Menos Deus. Já é tempo de percebermos a inconsistência dessas pessoas ignorantes e acabar com essa bagunça!


O DESRESPEITO E OS ESCUDOS TRANSPARENTES

Existe uma falta de consideração aos LGBTs e até mesmo aos próprios cristãos, em campanhas como esta porque além do desrespeito de se dizer em rede social – veículo de alcance massivo – que o amor entre duas mulheres lésbicas é algo “não divino”, há também um abuso em se generalizar uma crença, pois nem todos os cristãos pensam ou se expressam desta maneira.

Existem dois escudos transparentes para os “cristãos” que gostam de soltar impropérios de graça aos gays: 1 – o direito de opinião e a liberdade religiosa e 2 – “odiar o pecado, mas amar o pecador”. O primeiro escudo transparente lhes dá a prerrogativa de cuspir homofobia, falar que beijo entre homens ou mulheres é coisa do capeta e alegar que só estão expressado sua crença religiosa e opinião pessoal e, portanto, não há razão para serem reprimidos. O segundo escudo transparente, devido a ignorância de muitos em relação à sexualidade/orientação sexual, dá a infeliz oportunidade para um se ridicularizar dizendo “não somos contra o homossexual e sim contra a homossexualidade, contra o ato.” 

Santa que pariu!!!!! 

O que é o ato, mother******? Fazer amor, amar, construir família, compartilharmos nossas vidas com nossos esposos(as), sermos felizes? Eles realmente acham que homossexualidade e homossexual podem se separar. Não dá vontade de mandar esses caras irem estudar? Por isso digo que precisamos daquela lei.

Como eu já disse antes, todos nós temos o direito de pensar e de acreditar no que bem entendermos, porém é na hora de verbalizar as convicções que precisamos filtrar o que pode e não deve ser dito às pessoas e não abusar da liberdade de expressão, pois o mundo é grande e cheio de religiões e convicções diferentes. Tem que se saber coexistir.
Mas o legal desses escudos transparentes é que podemos ver quem é quem. Sabemos para onde correm os haters de plantão. Assim, no futuro próximo e no distante, poderemos identificar com clareza os motivos pelos quais eles ficaram gravados do lado dark da história humana.


Algo importante que eu queria ressaltar antes de finalizar é que evangélicos sérios não se envolvem com essas manifestações incoerentes, apesar de suas crenças pessoais. Portanto, não deixemos que pessoas cheias de fobia e ódio, escondendo-se atrás desse título, sujem a memória do evangelho de Cristo que prega o amor ao próximo e contém a regra de ouro: não devemos fazer aos outros o que não queremos que nos façam.

2 comentários:

  1. Meu caro Jon, sou católica ( não tenho frequentado a Santa Missa, (grande falha minha). Contudo, sigo os preceitos da doutrina que são os mesmos que dos evangélicos (não cometer adultério, fornicação, violência) entre outros citados acima. Acredito que cada um assiste o que quiser na tv ou internet de acordo com sua consciência. Particularmente no caso da globo, trata-se de uma emissora que vem perdenso audiência ao longo dos anos e por esse motivo vem apelando ás cenas "calientes" e de "beijo gay" o que já cansou! Deve-se respeitar as pessoas independentemente de sua classe social, religião, opção sexual, etc. Esse é o prncípio de uma sociedade verdadeiramente cristã. Quem se "escuda" na religião para depreciar o próximo, não entende nada da Palavra de DEUS. Um grande abraço e que DEUS lhe abençoe.

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  2. Oi, Márcia!
    Obrigado pelo comentário e pela benção. Que Deus te abençoe ainda mais!
    Não sei se o beijo gay serve como um apelo visto que tem tanta gente que muda de canal, mas concordo que não deveria ser apresentado como uma atração exótica de circo, como tem sido feito. Poderia ser colocado de uma forma mais natural, porém nós sabemos que as emissoras não jogam para perder. Eu só não vejo justificativa para uma campanha desse tipo. O fato de um casal homoafetivo ter seu romance representado na TV é algo muito positivo que soma na luta contra o preconceito, ignorância e ojeriza em relação a nós LGBTs. Mas para os da campanha que desejam que os gays continuem nos guetos, o beijo de amor das meninas foi uma ameaça. Mas… estou curioso: O que “já cansou” para você, o beijo gay em si ou a polêmica em torno dele? Só houveram dois até o momento, eu acho.

    obs.:
    opção sexual :(
    orientação sexual :)

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