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30 de mar de 2014

Uma Lição do Stand Up Paddle Surfing

Ontem aconteceu algo curioso comigo. Aprendi um pouco de Stand up paddle surfing. Nos próximos parágrafos você vai entender por que eu usei a expressão “aconteceu comigo”.
A Paria dos Osso, em Armação dos Búzios, estava perfeita para este esporte que consiste em uma prancha bem corpulenta acompanhada de um paddle – um remo – na qual o esportista (aventureiro, no meu caso) fica em pé e rema para se locomover na superfície da água. Meu esposo que estava comigo na praia, me convenceu a alugar uma prancha dizendo que seria meu presente de aniversário atrasado. Trinta reais por meia hora com o equipamento. Até que para uma cidade como Búzios, que suga o sangue do turista, não estava caro.  Uma senhora, paulista super simpática, me atendeu. “Já sabe remar?”
Ela perguntou por trás dos óculos-escuros. Como eu nunca havia praticado o esporte antes, ela e mais um rapazinho me ofereceram um colete salva-vidas e uma lição básica de como me equilibrar, remar, virar e parar. Eles foram tão positivos que me deixaram intrepidamente confiante. Nem quiz o colete. Daí, eu subi na prancha com os joelhos e minha confiança escorregou até o fundo da água. Percebi de cara que o negócio não era tão firme quanto parecia, quando os boys e girls da praia flutuavam entre os barcos ancorados. Mas respirei fundo, plantei os pés na prancha e levantei… E caí no mesmo momento. Quando dei por conta, já estava com a poupança no fundo, sentado exatamente encima da minha confiança perdida. E eu, crente que não ia molha a camisa. Hum! Tolinho.

A partir daí tentei ficar de pé mais uma vez, mas além de bambear horrores encima do bicho, eu olhava para baixo e enxergava a distância da minha altura para o espelho d’água somada à distância do espelho d’água para o fundo. Tipo… Muito mais intimidante do que eu havia imaginado. Decidi que remaria sentado durante todos os preciosos trinta minutos. Os dicionários populares definiriam isso como cagaço, mas eu estava é com muita vergonha de ficar caindo toda hora. E ao invés de stand up paddle surfing eu estaria fazendo stand up comedy para o povo da areia. Ok, teve um pouco de cagaço sim, admito. 
Mas comigo é assim. Tem certas coisas que eu determino: “isso eu não consigo”, “isso não dá”, “isso não posso”. Assim, bem decidido. 

Desde os tempos de escola eu tinha determinado em minha mente que eu nunca faria uma prova do Enem porque não saberia resolver nenhum dos problemas de Matemática. Eu até estava certo. Se eu fosse fazer uma daquelas temidas provas na época, deixaria aquela parte toda em branco. Sempre fui abaixo do ruim em Matemática. Mas a questão é que eu estava convencido de que era incapaz, e já havia me acomodado com aquela convicção. Até larguei o colégio no meio do Ensino Médio achando que nunca precisaria do curso completo. 
Anos depois, quando fui fazer cursos industrias para o ramo offshore, essa falta me trouxe o arrependimento. Precisava do EM completo o mais rápido possível. Assim, ingressei no estudo semi-presencial – aqueles sem professor. Você estuda toda a matéria sozinho e vai pro colégio fazer a prova. Estudei matemática igual a um condenado, mas em compensação, tirei notas altíssimas. Lembro até de ter tirado cem por cento nas três últimas. Aquilo foi uma prova de superação. 

O paddle board? Ah, ok. Foi mau. Voltando ao paddle board, eu estava lá, sentado feito um Buda, humilde à beça. Não faria um passeio tão legal e completo como de proposta. Olhava cabisbaixo para o transatlântico ancorado no horizonte com o aproamento em direção à praia. Foi aí que ouvi um psiu vindo de algum lugar. Olhei à volta, mas como não vi ninguém, ignorei. “Psiu!” Ouvi outra vez. “Sou eu oh, jojolão. Olha pra cá.” Assustadoramente, a voz parecia vir de algum ponto embaixo da prancha. Mas quem conseguiria falar debaixo d’água? Minha barriga gelou, meu cabelo arrepiou e senti uma leve vontade de fazer o número dois. 
“Quem tá aí?” Perguntei com a voz trêmula. “Tá difícil me ver, brother? Tú tá sentado no meu Astrodeck.” Dessa vez, o xixi foi inevitável. Eu estava sozinho na água com uma prancha possuída. A situação estava bem… Twilight Zone. Pulei na água e desembestei a nadar feito doido mas não conseguia sair do lugar. Algum tipo de força me segurava ali. Coisa do além! A orla, naquele momento, tinha se afastado de mim por cem metros. Aliás, tudo à volta estava cem metros mais distante – 360 graus de isolamento. 
Comecei a fazer todo o tipo de oração que lembrava. “Aí, véi. Com esse cagaço todo, tu precisa de ajuda mermo… Mó cabrerão.” Confesso que eu não entendia muito do que ela fala, mas suas palavras não me soavam como elogios. Eu tomei coragem e perguntei quem ela era e o que ela queria. Ela me respondeu que queria que eu a liberasse para “ir com os caras que são big riders” e que não queria perder tempo com “pangas do pântano”. Eu continuava sem entender muita coisa mas me sentia ofendido. Combinei com ela que a devolveria para o ponto de aluguel. Pedi permissão para montar de volta e ela consentiu. Vou te contar, tive que tomar coragem pra subir naquele bagulho maldito.

Enquanto eu remava, ela enchia minha paciência com insultos. Eu não conseguia decifrar o vocabulário, mas ela tinha um jeitinho especial de me fazer entender que eu era um merda.  Puxa vida, eu tinha pago trinta reais para nada! E a prancha continuava me desprezando, falando em gírias, com aquela voz que eu ainda não sabia exatamente de onde saía. Deslizávamos devagar de volta à areia. Havia tantas outras pessoas em pé em seus paddle boards, inclusive meninas de doze anos e senhoras de quarenta a cinqüenta. Foi nesse momento que entendi que se eu não tentasse, nunca conseguiria. 


Eu na Praia dos Ossos - Armação dos Búzios
Então sacudi a cabeça, planteis os pés na prancha mais uma vez e levantei segurando o remo com força – como se ele oferecesse algum suporte. Bambeei à vera e pensei em sentar de novo. Caí uma vez, mas subi de volta, com raça. Novamente em pé, minhas pernas tentavam aprender o balanço da água. Alguns consideráveis segundo depois eu estava em pé, firme e confiante. “Woohoo!! Quem manda nasce joça agora, heim, oh bóia de âncora.” Eu gritei vitorioso enquanto segurava o remo no alto com as duas mãos. 



A prancha não disse mais nada. A paria e tudo à volta, já estavam próximos de mim outra vez e eu remava, fazia curvas e me movia com velocidade entre os barcos de pesca. Pinto no lixo! Fiquei muito feliz por não ter desistido. Aprendi que tomar coragem é mais do que enfrentar o cagaço. É não se acomodar com o cômodo, é sair da zona de conforto.

Confesso que ainda não pesquisei o vocabulário aparentemente tribal da prancha, mas acho que ela, basicamente, quis dizer: deixa de leseira, mecha esse traseiro magro e levanta!

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